
IFRS S2: o que muda para empresas brasileiras a partir de 2026
A CVM tornou obrigatório o reporte IFRS S2 para companhias abertas. Entenda o que precisa estar no relatório, prazos, blocos exigidos e como evitar não-conformidade na primeira submissão.
O que é o IFRS S2
O IFRS S2 é o padrão internacional de divulgação de informações financeiras relacionadas ao clima, publicado pelo ISSB (International Sustainability Standards Board) em junho de 2023. Ele substitui e amplia o TCFD, exigindo que empresas reportem riscos físicos e de transição climática, métricas de emissões de GEE (Escopos 1, 2 e 3) e metas de descarbonização — tudo num formato que se integra ao relatório financeiro anual.
A diferença em relação a frameworks anteriores (CDP, GRI) é que o IFRS S2 trata clima como assunto financeiro, não como tema de sustentabilidade isolado. A divulgação vai junto com as demonstrações financeiras, é auditada por auditor externo e segue os mesmos princípios contábeis de materialidade e prudência.

Por que isso importa no Brasil
A CVM publicou a Resolução 193/2023 tornando o IFRS S2 obrigatório para companhias abertas brasileiras a partir do exercício de 2026 (com adoção voluntária em 2024-2025). O Brasil foi um dos primeiros países do mundo a adotar o padrão de forma compulsória — junto com Canadá, Reino Unido, Hong Kong, Singapura, Japão e Austrália.
Cronograma efetivo:
- 2024-2025: adoção voluntária. Empresas que adotaram nesse período ganharam vantagem reputacional e tempo de aprendizado.
- 2026 (exercício): obrigatoriedade plena. Relatórios publicados em 2027 já precisam estar conformes.
- 2027+: provável evolução para reasonable assurance e cobertura de Escopo 3 mais robusta.
O que precisa estar no relatório
O IFRS S2 organiza a divulgação em quatro blocos obrigatórios:
Governança
Como o conselho supervisiona riscos e oportunidades climáticas:
- Existência de comitê (ESG, sustentabilidade, riscos) com mandato climático explícito.
- Frequência de discussão em ata.
- Competências climáticas dos membros do conselho.
- Vinculação de metas climáticas à remuneração executiva.
Estratégia
Cenários climáticos analisados e impactos financeiros estimados:
- Pelo menos um cenário 1.5°C alinhado e um cenário 2°C+ ou inação.
- Horizontes curto (até 2030), médio (2030-2040), longo (2040+).
- Impactos quantitativos sobre receita, custo, capex, valor de ativos.
- Resiliência da estratégia em cada cenário.
Gestão de riscos
Como riscos climáticos são identificados, avaliados e mitigados:
- Processos formalizados, integrados ao framework geral de risco.
- Riscos físicos (agudos: enchente, seca, calor extremo / crônicos: aumento de temperatura média) e de transição (regulatório, tecnológico, mercado, reputacional).
- Materialidade quantitativa, não só qualitativa.
Métricas e metas
Emissões absolutas dos três escopos, intensidade, metas SBTi-aligned:
- Escopo 1, 2 (location-based e market-based) e Escopo 3 por categoria.
- Intensidade (tCO₂e por unidade relevante: receita, produto, m², funcionário).
- Metas absolutas e baseadas em ciência, com ano-base, ano-alvo e percentual.
- Progresso em relação à meta no período reportado.
- Volume e tipo de créditos de carbono usados (se houver).

Os erros mais comuns na primeira submissão
- Reportar Escopo 3 sem rastreabilidade. O auditor vai pedir os dados primários, a metodologia, e o plano de melhoria. Estimativa sem documentação metodológica é quase reprovação automática.
- Confundir IFRS S2 com inventário GHG. O inventário é a base — o S2 é o reporte estratégico que se apoia nele. Empresa sem inventário verificado não tem como reportar S2 com qualidade.
- Deixar para a última hora. Empresas que começaram em 2024-2025 estão saindo na frente. Fazer o primeiro ciclo em 3 meses é receita para erros.
- Não envolver financeiro e jurídico. S2 é divulgação financeira — precisa passar pelo CFO, pela auditoria interna e pelo jurídico antes da publicação.
- Tratar análise de cenários como exercício acadêmico. Os números precisam ser auditáveis e ter premissas defensáveis. Cenário "vamos perder R$ X em 2050" sem modelagem é pior que cenário ausente.
Calendário operacional sugerido
Para empresa que começa a se preparar agora (abril/2026) com vista ao reporte do exercício 2026:
| Mês | Atividade |
|---|---|
| Abr-Mai 2026 | Diagnóstico de gap; identificação de dados faltantes; mapeamento de fornecedores prioritários para Escopo 3 |
| Jun-Jul 2026 | Coleta de dados Escopo 1+2; análise preliminar de cenários; primeira versão de governança documentada |
| Ago-Set 2026 | Coleta intensiva de Escopo 3; cálculo de inventário; estabelecimento de metas |
| Out-Nov 2026 | Verificação independente (limited assurance); ajustes finais |
| Dez 2026 | Fechamento do inventário do exercício; redação final do reporte |
| Jan-Mar 2027 | Integração ao relatório anual; aprovação pelo conselho; publicação |
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- Comece pelo inventário GHG completo (Escopos 1, 2, 3) auditável — sem isso, IFRS S2 não fecha.
- Documente análise de cenários climáticos (ao menos um cenário 1.5°C e um cenário 2°C+) com impactos financeiros estimados.
- Estabeleça governança formal: a supervisão climática precisa estar documentada em ata do conselho.
- Planeje verificação independente — limited assurance no primeiro ano, reasonable assurance a partir do segundo.
- Integre o reporte IFRS S2 com CDP e CSRD para evitar trabalho duplicado e inconsistência entre canais.
Perguntas frequentes
Quem é obrigado a reportar IFRS S2 no Brasil?+
Companhias abertas registradas na CVM, a partir do exercício de 2026 (relatório publicado em 2027). Adoção voluntária permitida desde 2024. Empresas fechadas com obrigações ESG contratuais (banco, fundo, parceiros internacionais) frequentemente são empurradas a adotar voluntariamente.
Qual a diferença entre IFRS S1 e IFRS S2?+
S1 é o padrão geral de divulgações financeiras relacionadas a sustentabilidade (qualquer tema material — clima, biodiversidade, capital humano etc.). S2 é específico para clima e tem exigências detalhadas de emissões, cenários e metas. No Brasil, ambos são obrigatórios pela Resolução CVM 193.
Preciso de auditoria externa do reporte?+
Sim. A Resolução CVM 193 exige verificação por terceiro acreditado. Limited assurance no primeiro ciclo, reasonable assurance progressiva conforme a maturidade. Auditores como KPMG, EY, PwC e Deloitte já estruturaram práticas dedicadas para IFRS S2.
Como reportar Escopo 3 quando não tenho dados primários?+
Use spend-based ou activity-based como base inicial e documente o plano de evolução para dados primários. O IFRS S2 aceita estimativas iniciais desde que metodologia, premissas e plano de melhoria estejam transparentes. Auditor não vai reprovar dado estimado bem documentado — vai reprovar dado opaco.
IFRS S2 e CSRD são o mesmo padrão?+
Não. CSRD usa os ESRS (com 12 padrões temáticos) e exige dupla materialidade (impacto + financeiro). IFRS S2 é só financeiro e só clima. Para empresa brasileira com operação na UE, ambos podem ser obrigatórios — interoperabilidade existe mas não é automática.
- IFRS S2
- Padrão internacional de divulgação financeira relacionada ao clima publicado pelo ISSB em junho/2023. Substitui e amplia o TCFD.
- ISSB
- International Sustainability Standards Board. Órgão da IFRS Foundation que publica os padrões S1 (geral) e S2 (clima).
- TCFD
- Task Force on Climate-related Financial Disclosures. Framework anterior do FSB, descontinuado em 2024 com migração para IFRS S2.
- Resolução CVM 193/2023
- Norma brasileira que tornou obrigatórios os padrões IFRS S1 e S2 para companhias abertas a partir do exercício de 2026.
- Limited assurance
- Nível inicial de verificação por auditor externo. Equivalente a 'nada nos chamou atenção em sentido contrário'.
- Reasonable assurance
- Nível mais robusto de verificação, com profundidade equivalente à auditoria das demonstrações financeiras.
- Análise de cenários
- Exercício estratégico de modelagem do impacto financeiro da empresa em diferentes trajetórias climáticas (1.5°C, 2°C, 3°C+).
- Dupla materialidade
- Princípio do CSRD/ESRS: empresa reporta tanto o impacto do clima sobre o negócio quanto o impacto do negócio sobre o clima. IFRS S2 só exige a primeira.
Frameworks mencionados neste artigo
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