
O El Niño vai aparecer no seu inventário de 2027
Agosto de 2026 empatou como mês mais quente já registrado e o El Niño ainda não chegou ao pico. Isso vai mexer no seu escopo 2 sem você mudar nada.
Agosto de 2026 fechou com média global de 16,96 °C, segundo o Copernicus. É 1,65 °C acima da média de 1850 a 1900, o período que as agências usam como referência pré-industrial, e o primeiro mês acima de 1,5 °C desde novembro de 2025.
Vale dizer com precisão, porque a diferença importa: o boletim não diz que foi o mês mais quente da história. Diz que empatou com julho de 2023, com diferença menor que 0,01 °C. Está dentro da incerteza da medição. Empate técnico.
Nos Estados Unidos, o verão foi o mais quente em 132 anos de série, segundo a NOAA, superando por 0,2 °C o recorde anterior, que era um empate entre 1936 e 2021.
Esses números vão circular a semana inteira. O que quase ninguém vai dizer é o que eles fazem com a sua contabilidade de emissões no ano que vem.
O El Niño está ativo, e o pico ainda não veio
Em 10 de setembro, o Climate Prediction Center da NOAA manteve o El Niño Advisory, o aviso de evento em curso. A anomalia de temperatura na região Niño-3.4, que é a referência do índice, estava em 1,8 °C acima do normal. No Pacífico leste, junto à costa da América do Sul, passava de 3 °C.
A previsão oficial fala em mais de 90% de chance de um evento muito forte entre o outono e o inverno do hemisfério norte, e em 75% de chance de um evento histórico entre outubro e dezembro, que superaria todos os registrados desde 1950.
Repare na palavra: chance. É probabilidade, não previsão fechada. Mas mesmo a leitura conservadora tem uma consequência operacional clara.
O efeito do El Niño sobre a temperatura global não aparece todo de uma vez. Ele vem com atraso de alguns meses, o que significa que a parcela de calor associada a este evento vai se manifestar principalmente ao longo de 2027. Traduzindo para o calendário de quem faz inventário: o ano que ainda vai ser medido.
Por onde isso entra na sua conta de emissões
Calor não emite. Reação a calor, sim.
Quando a temperatura sobe, o ar-condicionado trabalha mais horas e com maior carga. Isso aparece direto na conta de luz e, portanto, no seu escopo 2, que é a emissão associada à energia que a empresa compra. Em operação com câmara fria, a mesma coisa, com peso maior.
Sobe também a chance de falha e de restrição na rede, o que liga gerador a diesel. Gerador é escopo 1, queima direta, com fator de emissão bem mais alto por unidade de energia do que a média da rede brasileira. Uma semana de gerador num ano de seca desloca o número de um jeito que ninguém planejou.
Em seca prolongada, o próprio fator de emissão da rede muda. O sistema elétrico brasileiro é majoritariamente hídrico, e quando os reservatórios baixam entram as térmicas. O mesmo quilowatt-hora consumido passa a carregar mais carbono, sem que a empresa tenha alterado uma linha do seu consumo. Por isso o fator de emissão que você usa tem que ser o do ano certo, com a referência registrada.
Some as três coisas e você tem um inventário que sobe por motivo meteorológico, em empresa que não fez nada de errado.
O problema não é o calor. É a comparação.
Inventário isolado não diz quase nada. O que interessa é a comparação: este ano contra o ano passado, esta unidade contra aquela, o resultado contra a meta.
É aí que o El Niño estraga a conversa.
Imagine duas empresas. A primeira reduziu consumo de verdade, trocou equipamento, ajustou operação. A segunda não fez nada. Num ano quente, a primeira pode aparecer estável e a segunda pode aparecer pior. Sem o contexto climático registrado, as duas viram a mesma coisa no relatório: um número que subiu.
O inverso também acontece, e é mais perigoso. Num ano frio, uma empresa que não fez nada publica queda de emissões e comemora. No ano seguinte, quando o clima volta ao normal, a "redução" desaparece e alguém vai ter que explicar.
Quem trabalha com metas de redução baseadas em ciência conhece esse problema pelo nome: a comparação com o ano-base só vale se o que mudou for a operação, não a condição em que ela rodou.
Quem sente primeiro, e por onde
O efeito não é igual para todo mundo.
No agronegócio o impacto mais óbvio é a chuva fora de hora, mas o que estraga o indicador é outra coisa: a produtividade. Boa parte das metas do setor é medida em emissão por tonelada produzida. Se a safra cai e a emissão fica igual, o indicador piora sem que nada tenha mudado na operação. O problema está no denominador, e quase ninguém anota isso na nota metodológica.
No varejo e em alimentos, o peso vai para refrigeração. Loja, centro de distribuição e câmara fria trabalham mais horas por dia no calor, e isso aparece direto na conta de energia, mês a mês, de forma bem visível quando o dado está por unidade.
Em energia e na indústria pesada, o problema é a rede. Seca prolongada muda a matriz que alimenta a fábrica, e com ela o fator de emissão de cada quilowatt-hora comprado. Uma operação eletrointensiva pode ver a emissão do escopo 2 subir vários pontos percentuais sem ter ligado nenhuma máquina nova.
Em transporte e logística, o efeito é indireto e chega por rota: estrada interditada, porto parado, trecho refeito. Mais quilômetro rodado para entregar a mesma coisa.
A lista não é exaustiva e o ponto não é decorar setores. É que cada operação tem um caminho pelo qual o clima entra na conta, e vale saber qual é o seu antes de precisar explicar a variação.
O que fazer agora, antes de precisar explicar
Três coisas, e nenhuma delas é complicada. O que elas exigem é que sejam feitas durante o ano, não no fechamento.
Primeiro, registre a variável climática junto do dado de consumo. Grau-dia de refrigeração é a medida usual: quantos graus, e por quantos dias, a temperatura passou do ponto em que o prédio precisa refrigerar. O dado é público e está no INMET. Guardar isso ao lado do consumo mensal, por unidade, custa pouco e resolve a pergunta antes dela ser feita.
Segundo, anote os eventos. Quantas horas de gerador, em que dias, por quê. Se foi falta de energia, se foi teste, se foi restrição. Esse registro é o que separa "a emissão subiu" de "a emissão subiu porque a concessionária caiu três vezes em janeiro". Um é um número. O outro é uma explicação que se sustenta.
Terceiro, escreva a nota metodológica no mesmo momento. Não no ano seguinte, quando a memória do time já se perdeu. A nota que diz "este ano teve X% mais grau-dia que o ano-base" é o que transforma uma variação em informação. É o mesmo princípio que faz um relatório aguentar auditoria: cada número carrega a origem e o contexto em que foi medido.
Se o seu inventário de emissões hoje é uma planilha montada em fevereiro com dados do ano inteiro, nada disso vai existir quando você precisar. A informação sobre o contexto some antes do fechamento.
Isso também é risco físico, e ele tem que ser reportado
Quem reporta no padrão IFRS S2 já tem uma obrigação que conversa direto com isso. O padrão pede a descrição de riscos físicos, que são os riscos do clima sobre a operação, e não só dos riscos de transição.
Um evento de El Niño forte é exatamente esse tipo de coisa: afeta disponibilidade de água, estabilidade da rede elétrica, produtividade agrícola e logística. Uma empresa que registra grau-dia e horas de gerador não está só arrumando o inventário. Está montando a evidência de como o clima afeta o negócio, que é o que o investidor vai cobrar.
E vai cobrar mesmo. A Resolução PREVIC 26/2025 já obriga fundos de pensão a divulgar o impacto da carteira, com prazo em 2027 para os maiores. O ano que o El Niño vai esquentar é o mesmo ano que eles vão ter que reportar.
A precisão também faz parte do trabalho
Volto ao começo, porque tem uma lição ali que vale mais que o número.
Os boletins do Copernicus e da NOAA são públicos, gratuitos e escritos com cuidado. Eles dizem "empate", dizem "75% de chance", dizem "pelo menos". Ao longo da semana, boa parte do que circular vai ter trocado empate por recorde absoluto, chance por certeza, e piso por teto. Não por má-fé: é o que acontece com um número a cada vez que ele é repassado sem a fonte junto.
É o mesmo fenômeno que a gente encontra dentro das empresas. O consumo sai do medidor, passa por uma planilha, depois por um e-mail, depois por uma apresentação, e no fim vira um número que ninguém consegue reconstruir. A diferença entre um dado e um boato é a trilha que ele carrega.
Se você for usar os números de agosto em alguma apresentação, vale pegar na fonte. Copernicus e NOAA publicam os boletins completos, com os mapas, de graça. É meia hora de leitura e evita citar de segunda mão um número que já foi arredondado três vezes.
O calor de 2026 já está medido. O de 2027 vai ser medido no seu inventário, e alguém vai perguntar quanto foi clima e quanto foi gestão. Dá para ter essa resposta pronta.
- Registre grau-dia de refrigeração junto do consumo mensal de cada unidade para separar clima de eficiência operacional.
- Anote horas de gerador, datas e motivos no momento do evento, antes que o contexto desapareça.
- Use o fator de emissão da rede correspondente ao ano inventariado e guarde a referência aplicada.
- Escreva a nota metodológica durante a coleta, com o contexto climático que explica cada variação relevante.
- Conecte os mesmos registros ao reporte de risco físico exigido pelo IFRS S2 e cobrado por investidores.
Perguntas frequentes
O El Niño aumenta as emissões da minha empresa?+
Não diretamente. O que aumenta é a resposta ao calor: mais refrigeração, o que pesa no escopo 2, e mais uso de gerador em caso de falha da rede, o que pesa no escopo 1. Em seca prolongada, o fator de emissão da rede elétrica brasileira também sobe, porque entram as térmicas. O consumo pode ser o mesmo e a emissão subir.
O que é grau-dia de refrigeração?+
É uma medida de quanto e por quanto tempo a temperatura passou do ponto em que um prédio precisa de refrigeração. Serve para comparar dois anos sem confundir clima com gestão. O dado é público, no INMET.
Agosto de 2026 foi o mês mais quente da história?+
Empatou. O Copernicus classificou como o mês mais quente já registrado em conjunto com julho de 2023, com diferença abaixo de 0,01 °C, dentro da incerteza do dado. A média global foi de 16,96 °C, 1,65 °C acima da média de 1850 a 1900.
Esse El Niño vai bater recorde?+
A NOAA fala em probabilidade, não em previsão fechada: mais de 90% de chance de um evento muito forte no fim de 2026 e 75% de chance de um evento histórico entre outubro e dezembro, que superaria os registrados desde 1950. O efeito sobre a temperatura global costuma aparecer com alguns meses de atraso, o que joga boa parte do impacto para 2027.
Preciso refazer meu inventário por causa disso?+
Não. Precisa registrar o contexto junto do dado deste ano, enquanto ele está sendo coletado: grau-dia por unidade, horas de gerador e o motivo. Sem isso, a comparação do ano que vem não vai ter como separar o efeito do clima do efeito da sua operação.
- El Niño
- Aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial que altera o clima em boa parte do planeta e costuma elevar a temperatura média global por alguns meses.
- Niño-3.4
- A região do Pacífico usada como referência para medir a intensidade do fenômeno.
- Grau-dia de refrigeração
- Medida de quanto e por quanto tempo a temperatura passou do ponto em que é preciso refrigerar um ambiente.
- Escopo 2
- As emissões associadas à energia que a empresa compra, principalmente eletricidade.
- Fator de emissão da rede
- Quanto carbono carrega cada unidade de eletricidade consumida, que no Brasil varia conforme a participação das térmicas.
- Ano-base
- O ano usado como referência para comparar resultados e medir progresso de metas.
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