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Técnico conferindo medidor em planta industrial, com prancheta de coleta de dados de consumo
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Guias 13 min de leitura11 de setembro de 2026

Inventário de gases de efeito estufa: o que é e como fazer

O que é, por que fazer mesmo sem obrigação legal, os três escopos sem jargão, o passo a passo em 7 etapas e quanto tempo leva o primeiro ciclo.

Emilia Minieri
Emilia Minieri
Head de Operações e Metodologia · Mangue
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O que é o inventário de gases de efeito estufa

O inventário de gases de efeito estufa é a conta de quanto a sua empresa emite, por fonte, num período. Normalmente um ano.

Ele não é um relatório nem um selo. É a base de dados de onde saem o relatório, a meta, a resposta ao questionário do cliente e, quando o caso, a compensação. Sem ele, tudo o que vem depois é estimativa com cara de número.

A conta em si é simples e não mudou em vinte anos:

dado de atividade × fator de emissão = tCO₂e

Litros de diesel vezes o fator do diesel. MWh consumidos vezes o fator da rede. Tonelada de resíduo aterrado vezes o fator do aterro. A dificuldade nunca esteve na multiplicação. Está em conseguir o dado de atividade de dezenas de áreas, em formatos diferentes, e conseguir provar de onde ele veio.

Por que fazer, mesmo sem obrigação

No Brasil o inventário raramente é exigido por lei para a empresa comum. Ele é exigido por quem está do outro lado da mesa:

  • Cliente grande. O seu dado de emissão entra no escopo 3 dele. Questionário de fornecedor tem prazo curto, e quem responde com estimativa perde ponto.
  • Banco e investidor. Viraram o público principal do relato depois que a CVM 244 tornou a divulgação voluntária.
  • Edital e concorrência. Critério de emissão entrou em licitação pública e privada.
  • Regulação que vem. O SBCE vai exigir reporte de quem emite acima de 10.000 tCO₂e por ano. Quem já mede chega pronto.

E há a razão que não depende de terceiro: não dá para reduzir o que não está medido. Metas SBTi, plano de descarbonização e qualquer decisão de investimento em eficiência saem do inventário.

Os três escopos, sem jargão

Escopo 1, o que a sua empresa queima. Caldeira, forno, frota própria, processo industrial, fuga de gás de refrigeração. É o escopo em que a empresa controla a fonte, e por isso o mais fácil de medir.

Escopo 2, a energia que a sua empresa compra. Eletricidade, vapor, calor. No Brasil a matriz é majoritariamente renovável, então esse escopo costuma ser pequeno em tCO₂e, mas ele tem uma pegadinha: o GHG Protocol exige dois cálculos, o *location-based* (fator médio da rede) e o *market-based* (o que o seu contrato de energia diz). Reportar só um é não conformidade, e quem compra energia renovável e não calcula o market-based está jogando fora o benefício que pagou para ter.

Escopo 3, o resto da cadeia. Compras, frete, viagem, deslocamento de funcionário, resíduo, uso do produto vendido, investimento. São 15 categorias. Para a maioria das empresas é de 70% a 90% do total, e é onde o auditor olha primeiro. O detalhamento categoria por categoria está em Escopo 3: guia prático das 15 categorias.

Como fazer o inventário em 7 passos

1. Defina a fronteira

Quais empresas do grupo entram e por qual critério: controle operacional, controle financeiro ou participação acionária. Controle operacional é o mais usado e o mais simples de sustentar.

Escreva a decisão. Ela vai ser cobrada, e mudar a fronteira em silêncio de um ano para o outro é o que mais quebra inventário em due diligence.

2. Escolha o ano-base

É o ano contra o qual todo o progresso vai ser medido. Escolha um ano com dado disponível e operação representativa, não o melhor ano.

Defina junto a política de recálculo: o GHG Protocol manda recalcular quando fusão, aquisição, mudança de metodologia ou erro relevante mexem em 5% ou mais do total.

3. Mapeie as fontes de emissão

Percorra a operação perguntando o que queima, o que consome energia comprada e o que a empresa paga para terceiros fazerem. Facilities, frota, produção, compras, logística, RH e financeiro têm pedaços do dado.

4. Colete o dado de atividade

O passo que consome 60% do tempo. Fatura de energia, nota de combustível, relatório de viagem, CTe da transportadora, manifesto de resíduo, pesquisa de deslocamento, razão contábil de compras.

Guarde o documento de origem junto do número. Um dado sem documento vira estimativa na hora em que alguém pergunta.

5. Aplique o fator de emissão certo

A hierarquia para operação no Brasil:

  1. Dado primário do próprio fornecedor, quando existe.
  2. MCTI, os fatores oficiais brasileiros. O da rede elétrica muda todo ano.
  3. IPCC, os defaults globais.
  4. Defra, útil para categorias de escopo 3 que os outros não cobrem, como viagem aérea e materiais.

Registre fonte, ano de publicação e versão do GWP (AR5 ou AR6). Comparar um ano calculado em AR5 com outro em AR6 sem ajuste produz variação que não existiu na operação.

6. Calcule e confira

Antes de fechar, procure os erros clássicos: unidade trocada (litro com galão, MWh com kWh), dupla contagem (o mesmo combustível na planilha da frota e na de facilities), período sobreposto e fator do ano errado.

Um salto sem explicação operacional é quase sempre erro de digitação, não aumento de emissão.

7. Documente e, se for o caso, verifique

A memória de cálculo descreve fronteira, fontes incluídas e excluídas com justificativa, metodologia por tipo de fonte e premissas. É a receita do inventário; sem ela, ninguém consegue avaliar se o resultado está certo.

A verificação por terceiro acreditado (ISO 14064-3) não é obrigatória no Brasil, mas é o que separa número declarado de número sustentado. O CDP pontua a mais por ela.

Quanto tempo leva

O primeiro inventário leva de 8 a 12 semanas na maioria das empresas de médio porte, com a coleta ocupando a maior parte. Do segundo ciclo em diante cai para 4 a 6 semanas, se a coleta tiver ficado estruturada. Se ela voltar a ser mutirão de e-mail, o segundo ano custa igual ao primeiro, que é o assunto de plataforma vs planilha.

Inventário, pegada de carbono e neutralização não são a mesma coisa

Três termos que o mercado mistura:

TermoO que é
Inventário de GEEEmissões da organização inteira, por escopo, num período
Pegada de carbono de produtoEmissões de uma unidade de produto, do berço ao portão ou ao túmulo (ISO 14067)
NeutralizaçãoCompensar o residual com crédito, depois de medir e reduzir

Quem pede "pegada de carbono da empresa" quase sempre quer o inventário. Quem precisa responder a um cliente sobre um produto específico precisa da pegada de produto, que é outro cálculo. E compensar antes de medir é a definição operacional de greenwashing.

Por onde começar

Comece pelos escopos 1 e 2 com dado primário, faça uma triagem de escopo 3 por gasto para descobrir onde estão os 3 a 5 hotspots, e só então aprofunde. Tentar calcular as 15 categorias de escopo 3 com precisão no primeiro ciclo é a forma mais confiável de não terminar nenhuma.

O inventário de gases de efeito estufa feito assim serve o ano inteiro: alimenta o relatório, a resposta ao cliente, o CDP e a meta. Feito como projeto isolado, ele expira em doze meses.

Para levar
  • Escreva a fronteira e a política de recálculo antes de calcular qualquer coisa
  • Guarde o documento de origem junto do número, porque dado sem documento vira estimativa
  • Reporte os dois cálculos de escopo 2, location-based e market-based; só um é não conformidade
  • Faça triagem de escopo 3 por gasto para achar os 3 a 5 hotspots antes de aprofundar
  • Registre fonte, ano e versão do GWP de cada fator, para a série temporal continuar comparável

Perguntas frequentes

O inventário de gases de efeito estufa é obrigatório no Brasil?+

Para a empresa comum, não. Ele é exigido na prática por cliente grande (o seu dado entra no escopo 3 dele), por banco e investidor, e por editais com critério de emissão. O SBCE, criado pela Lei 15.042/2024, vai exigir reporte de quem emite acima de 10.000 tCO₂e por ano quando entrar em operação.

Qual a diferença entre inventário de GEE e pegada de carbono?+

O inventário mede a organização inteira num período, dividido em escopos 1, 2 e 3. A pegada de carbono de produto mede uma unidade de produto ao longo do ciclo de vida, sob a ISO 14067. Quem pede a pegada de carbono da empresa quase sempre quer o inventário.

Quanto tempo leva fazer um inventário de emissões?+

De 8 a 12 semanas no primeiro ciclo para uma empresa de médio porte, com a coleta de dados ocupando a maior parte. Do segundo ciclo em diante cai para 4 a 6 semanas, desde que a coleta tenha ficado estruturada em vez de virar mutirão de e-mail.

Preciso calcular as 15 categorias do escopo 3?+

Não. O GHG Protocol exige avaliar as 15 para determinar relevância, mas só reportar as materiais. A prática é fazer uma triagem por gasto no primeiro ciclo, identificar os 3 a 5 hotspots e aprofundar neles. CDP e SBTi esperam cobertura de pelo menos 67% das emissões de escopo 3.

Que fatores de emissão usar no Brasil?+

A ordem é dado primário do fornecedor, depois MCTI para os fatores oficiais brasileiros, depois IPCC para os defaults globais e Defra para categorias de escopo 3 que os outros não cobrem. O fator da rede elétrica brasileira muda todo ano e é publicado com cerca de um ano de defasagem.

Preciso de verificação independente do inventário?+

Não é obrigatória no Brasil, mas é ela que separa número declarado de número sustentado. A verificação segue a ISO 14064-3, o CDP pontua a mais por ela, e o SBTi pede inventário consistente para validar metas.

Glossário
Dado de atividade
A quantidade física que gera emissão: litros de combustível, MWh de eletricidade, toneladas de resíduo.
Fator de emissão
Coeficiente que converte o dado de atividade em tCO₂e. Varia por combustível, região, tecnologia e ano.
Ano-base
Ano de referência contra o qual o progresso é medido. Recalculado quando uma mudança afeta 5% ou mais do total.
Location-based
Cálculo de escopo 2 pelo fator médio da rede elétrica da região.
Market-based
Cálculo de escopo 2 pelo contrato de energia ou certificado renovável da empresa.
GWP
Global Warming Potential. Converte outros gases em CO₂ equivalente. Muda a cada ciclo do IPCC (AR5, AR6).
Memória de cálculo
Documento que descreve fronteira, fontes, metodologia e premissas. Sem ela o resultado não é avaliável.
Fontes

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