
Inventário de gases de efeito estufa: o que é e como fazer
O que é, por que fazer mesmo sem obrigação legal, os três escopos sem jargão, o passo a passo em 7 etapas e quanto tempo leva o primeiro ciclo.
O que é o inventário de gases de efeito estufa
O inventário de gases de efeito estufa é a conta de quanto a sua empresa emite, por fonte, num período. Normalmente um ano.
Ele não é um relatório nem um selo. É a base de dados de onde saem o relatório, a meta, a resposta ao questionário do cliente e, quando o caso, a compensação. Sem ele, tudo o que vem depois é estimativa com cara de número.
A conta em si é simples e não mudou em vinte anos:
dado de atividade × fator de emissão = tCO₂e
Litros de diesel vezes o fator do diesel. MWh consumidos vezes o fator da rede. Tonelada de resíduo aterrado vezes o fator do aterro. A dificuldade nunca esteve na multiplicação. Está em conseguir o dado de atividade de dezenas de áreas, em formatos diferentes, e conseguir provar de onde ele veio.
Por que fazer, mesmo sem obrigação
No Brasil o inventário raramente é exigido por lei para a empresa comum. Ele é exigido por quem está do outro lado da mesa:
- Cliente grande. O seu dado de emissão entra no escopo 3 dele. Questionário de fornecedor tem prazo curto, e quem responde com estimativa perde ponto.
- Banco e investidor. Viraram o público principal do relato depois que a CVM 244 tornou a divulgação voluntária.
- Edital e concorrência. Critério de emissão entrou em licitação pública e privada.
- Regulação que vem. O SBCE vai exigir reporte de quem emite acima de 10.000 tCO₂e por ano. Quem já mede chega pronto.
E há a razão que não depende de terceiro: não dá para reduzir o que não está medido. Metas SBTi, plano de descarbonização e qualquer decisão de investimento em eficiência saem do inventário.
Os três escopos, sem jargão
Escopo 1, o que a sua empresa queima. Caldeira, forno, frota própria, processo industrial, fuga de gás de refrigeração. É o escopo em que a empresa controla a fonte, e por isso o mais fácil de medir.
Escopo 2, a energia que a sua empresa compra. Eletricidade, vapor, calor. No Brasil a matriz é majoritariamente renovável, então esse escopo costuma ser pequeno em tCO₂e, mas ele tem uma pegadinha: o GHG Protocol exige dois cálculos, o *location-based* (fator médio da rede) e o *market-based* (o que o seu contrato de energia diz). Reportar só um é não conformidade, e quem compra energia renovável e não calcula o market-based está jogando fora o benefício que pagou para ter.
Escopo 3, o resto da cadeia. Compras, frete, viagem, deslocamento de funcionário, resíduo, uso do produto vendido, investimento. São 15 categorias. Para a maioria das empresas é de 70% a 90% do total, e é onde o auditor olha primeiro. O detalhamento categoria por categoria está em Escopo 3: guia prático das 15 categorias.
Como fazer o inventário em 7 passos
1. Defina a fronteira
Quais empresas do grupo entram e por qual critério: controle operacional, controle financeiro ou participação acionária. Controle operacional é o mais usado e o mais simples de sustentar.
Escreva a decisão. Ela vai ser cobrada, e mudar a fronteira em silêncio de um ano para o outro é o que mais quebra inventário em due diligence.
2. Escolha o ano-base
É o ano contra o qual todo o progresso vai ser medido. Escolha um ano com dado disponível e operação representativa, não o melhor ano.
Defina junto a política de recálculo: o GHG Protocol manda recalcular quando fusão, aquisição, mudança de metodologia ou erro relevante mexem em 5% ou mais do total.
3. Mapeie as fontes de emissão
Percorra a operação perguntando o que queima, o que consome energia comprada e o que a empresa paga para terceiros fazerem. Facilities, frota, produção, compras, logística, RH e financeiro têm pedaços do dado.
4. Colete o dado de atividade
O passo que consome 60% do tempo. Fatura de energia, nota de combustível, relatório de viagem, CTe da transportadora, manifesto de resíduo, pesquisa de deslocamento, razão contábil de compras.
Guarde o documento de origem junto do número. Um dado sem documento vira estimativa na hora em que alguém pergunta.
5. Aplique o fator de emissão certo
A hierarquia para operação no Brasil:
- Dado primário do próprio fornecedor, quando existe.
- MCTI, os fatores oficiais brasileiros. O da rede elétrica muda todo ano.
- IPCC, os defaults globais.
- Defra, útil para categorias de escopo 3 que os outros não cobrem, como viagem aérea e materiais.
Registre fonte, ano de publicação e versão do GWP (AR5 ou AR6). Comparar um ano calculado em AR5 com outro em AR6 sem ajuste produz variação que não existiu na operação.
6. Calcule e confira
Antes de fechar, procure os erros clássicos: unidade trocada (litro com galão, MWh com kWh), dupla contagem (o mesmo combustível na planilha da frota e na de facilities), período sobreposto e fator do ano errado.
Um salto sem explicação operacional é quase sempre erro de digitação, não aumento de emissão.
7. Documente e, se for o caso, verifique
A memória de cálculo descreve fronteira, fontes incluídas e excluídas com justificativa, metodologia por tipo de fonte e premissas. É a receita do inventário; sem ela, ninguém consegue avaliar se o resultado está certo.
A verificação por terceiro acreditado (ISO 14064-3) não é obrigatória no Brasil, mas é o que separa número declarado de número sustentado. O CDP pontua a mais por ela.
Quanto tempo leva
O primeiro inventário leva de 8 a 12 semanas na maioria das empresas de médio porte, com a coleta ocupando a maior parte. Do segundo ciclo em diante cai para 4 a 6 semanas, se a coleta tiver ficado estruturada. Se ela voltar a ser mutirão de e-mail, o segundo ano custa igual ao primeiro, que é o assunto de plataforma vs planilha.
Inventário, pegada de carbono e neutralização não são a mesma coisa
Três termos que o mercado mistura:
| Termo | O que é |
|---|---|
| Inventário de GEE | Emissões da organização inteira, por escopo, num período |
| Pegada de carbono de produto | Emissões de uma unidade de produto, do berço ao portão ou ao túmulo (ISO 14067) |
| Neutralização | Compensar o residual com crédito, depois de medir e reduzir |
Quem pede "pegada de carbono da empresa" quase sempre quer o inventário. Quem precisa responder a um cliente sobre um produto específico precisa da pegada de produto, que é outro cálculo. E compensar antes de medir é a definição operacional de greenwashing.
Por onde começar
Comece pelos escopos 1 e 2 com dado primário, faça uma triagem de escopo 3 por gasto para descobrir onde estão os 3 a 5 hotspots, e só então aprofunde. Tentar calcular as 15 categorias de escopo 3 com precisão no primeiro ciclo é a forma mais confiável de não terminar nenhuma.
O inventário de gases de efeito estufa feito assim serve o ano inteiro: alimenta o relatório, a resposta ao cliente, o CDP e a meta. Feito como projeto isolado, ele expira em doze meses.
- Escreva a fronteira e a política de recálculo antes de calcular qualquer coisa
- Guarde o documento de origem junto do número, porque dado sem documento vira estimativa
- Reporte os dois cálculos de escopo 2, location-based e market-based; só um é não conformidade
- Faça triagem de escopo 3 por gasto para achar os 3 a 5 hotspots antes de aprofundar
- Registre fonte, ano e versão do GWP de cada fator, para a série temporal continuar comparável
Perguntas frequentes
O inventário de gases de efeito estufa é obrigatório no Brasil?+
Para a empresa comum, não. Ele é exigido na prática por cliente grande (o seu dado entra no escopo 3 dele), por banco e investidor, e por editais com critério de emissão. O SBCE, criado pela Lei 15.042/2024, vai exigir reporte de quem emite acima de 10.000 tCO₂e por ano quando entrar em operação.
Qual a diferença entre inventário de GEE e pegada de carbono?+
O inventário mede a organização inteira num período, dividido em escopos 1, 2 e 3. A pegada de carbono de produto mede uma unidade de produto ao longo do ciclo de vida, sob a ISO 14067. Quem pede a pegada de carbono da empresa quase sempre quer o inventário.
Quanto tempo leva fazer um inventário de emissões?+
De 8 a 12 semanas no primeiro ciclo para uma empresa de médio porte, com a coleta de dados ocupando a maior parte. Do segundo ciclo em diante cai para 4 a 6 semanas, desde que a coleta tenha ficado estruturada em vez de virar mutirão de e-mail.
Preciso calcular as 15 categorias do escopo 3?+
Não. O GHG Protocol exige avaliar as 15 para determinar relevância, mas só reportar as materiais. A prática é fazer uma triagem por gasto no primeiro ciclo, identificar os 3 a 5 hotspots e aprofundar neles. CDP e SBTi esperam cobertura de pelo menos 67% das emissões de escopo 3.
Que fatores de emissão usar no Brasil?+
A ordem é dado primário do fornecedor, depois MCTI para os fatores oficiais brasileiros, depois IPCC para os defaults globais e Defra para categorias de escopo 3 que os outros não cobrem. O fator da rede elétrica brasileira muda todo ano e é publicado com cerca de um ano de defasagem.
Preciso de verificação independente do inventário?+
Não é obrigatória no Brasil, mas é ela que separa número declarado de número sustentado. A verificação segue a ISO 14064-3, o CDP pontua a mais por ela, e o SBTi pede inventário consistente para validar metas.
- Dado de atividade
- A quantidade física que gera emissão: litros de combustível, MWh de eletricidade, toneladas de resíduo.
- Fator de emissão
- Coeficiente que converte o dado de atividade em tCO₂e. Varia por combustível, região, tecnologia e ano.
- Ano-base
- Ano de referência contra o qual o progresso é medido. Recalculado quando uma mudança afeta 5% ou mais do total.
- Location-based
- Cálculo de escopo 2 pelo fator médio da rede elétrica da região.
- Market-based
- Cálculo de escopo 2 pelo contrato de energia ou certificado renovável da empresa.
- GWP
- Global Warming Potential. Converte outros gases em CO₂ equivalente. Muda a cada ciclo do IPCC (AR5, AR6).
- Memória de cálculo
- Documento que descreve fronteira, fontes, metodologia e premissas. Sem ela o resultado não é avaliável.
- GHG Protocol Corporate Accounting and Reporting Standard · GHG Protocol
- Corporate Value Chain (Scope 3) Accounting and Reporting Standard · GHG Protocol
- SIRENE · Sistema de Registro Nacional de Emissões · Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
- ISO 14064-1:2018 · Quantificação e relato de emissões de gases de efeito estufa · ISO
Frameworks mencionados neste artigo
Serviços relacionados
Receba análises ESG por email
Atualizações regulatórias, guias práticos e dados de mercado. Sem spam.
Roteiro IFRS S1 & S2
As 12 decisões que seu CFO precisa tomar antes de 2027. Gratuito.



