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Guias 14 min de leitura11 de setembro de 2026

Relatório de sustentabilidade: o que é e como fazer

O que é, se ainda é obrigatório depois da CVM 244, como fazer em 8 passos, quanto tempo leva e os cinco erros que mais custam retrabalho.

Emilia Minieri
Emilia Minieri
Head de Operações e Metodologia · Mangue
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O que é um relatório de sustentabilidade

Um relatório de sustentabilidade é o documento em que a empresa presta contas do efeito da própria operação sobre clima, recursos naturais, pessoas e governança, com números que dá para conferir.

A definição curta engana, porque a parte difícil não é escrever. É sustentar cada número quando alguém pergunta de onde ele veio.

Vale separar duas coisas que o mercado brasileiro trata como sinônimo:

  • Relatório de sustentabilidade é o documento de prestação de contas, normalmente anual, dirigido a quem financia, compra e fiscaliza.
  • Inventário de emissões é o cálculo de quanto a empresa emite. Ele é um insumo do relatório, não o relatório.

Quem começa pelo relatório escreve narrativa e depois procura dado. Quem começa pelo inventário de gases de efeito estufa tem o dado e depois escolhe o formato. A segunda ordem custa menos e aguenta auditoria.

É obrigatório no Brasil?

Não de forma universal, e isso mudou recentemente.

A Resolução CVM 193/2023 tornaria o reporte no padrão IFRS S1 e S2 obrigatório para companhias abertas a partir do exercício de 2026. A Resolução CVM 244, de 29 de maio de 2026, revogou essa obrigatoriedade antes de ela entrar em vigor. A partir de 2027 vale o modelo publique ou explique: divulgar é voluntário, e quem opta por não divulgar precisa explicar publicamente a decisão da administração.

Três exceções mantêm a obrigação de pé:

  1. Instituições financeiras. A Resolução CMN 5.185 mantém o reporte compulsório para as de maior porte: a partir do exercício de 2026 nos segmentos S1 e S2, e de 2028 no S3.
  2. Quem exporta para a Europa. A CSRD alcança grupos não europeus com faturamento acima de €150 milhões na UE a partir do exercício de 2028.
  3. Quem depende de crédito, de contrato ou de capital. Banco, investidor e cliente grande continuam pedindo, e a ausência entra na conta deles como risco.

A leitura prática: o relatório deixou de ser obrigação legal para a maioria e continuou sendo condição comercial. O detalhamento está em CVM 244: a obrigatoriedade caiu, o risco continua.

Como fazer um relatório de sustentabilidade em 8 passos

1. Defina para quem o relatório é

Antes de escolher padrão, escolha leitor. Analista de crédito, investidor, time de compras de um cliente e auditor procuram coisas diferentes, e o mesmo documento não atende bem aos quatro se você não souber qual deles decide alguma coisa sobre a sua empresa este ano.

Esse é o passo que quase todo mundo pula, e é o que determina se o relatório vai ser lido ou arquivado.

2. Faça a análise de materialidade

Materialidade é a lista curta dos temas que realmente importam para o seu negócio e para quem ele afeta. Ela define o escopo do relatório inteiro.

O método padrão ouve gente de dentro e de fora, cruza com o setor e ordena os temas por relevância. A CSRD exige a versão dupla, que separa o impacto da empresa no mundo do efeito do mundo sobre as finanças da empresa. Detalhamos o processo em matriz de materialidade.

Sem materialidade, o relatório vira uma lista de tudo o que a empresa faz de bom, que é exatamente o documento que ninguém lê.

3. Escolha o padrão de reporte

Os quatro que aparecem no Brasil:

PadrãoPara quemO que exige
GRIUso geral, o mais adotado no BrasilMaterialidade, indicadores por tema, índice de conteúdo
IFRS S1 e S2Companhia aberta, investidorGovernança, estratégia, gestão de risco, métricas e metas
CSRD/ESRSOperação ou faturamento na UEDupla materialidade, 12 padrões, verificação obrigatória
SASBSetor específico, investidorMétricas materiais por indústria

Não é preciso escolher um só. O comum é GRI como espinha dorsal e IFRS S2 no capítulo de clima. O que não funciona é montar uma base de dados diferente para cada um.

4. Monte o inventário de emissões

O capítulo de clima é onde o relatório é mais questionado, e é o único que tem um número absoluto no meio.

Calcule os escopos 1, 2 e 3 pelo GHG Protocol, com fator de emissão referenciado e documento de origem em cada linha. Escopo 3 costuma ser 70% a 90% do total e é onde o auditor vai olhar primeiro.

5. Colete o resto do dado

Água, resíduo, energia, diversidade, saúde e segurança, ética e cadeia de fornecedores. Cada indicador precisa de três registros: de onde veio, quem validou e quando.

Esse é o passo mais longo e o que mais estoura prazo. Planilha espalhada por área funciona no primeiro ano e trava no terceiro, pelas razões que descrevemos em plataforma vs planilha.

6. Escreva

Abra por consequência, não por norma. O leitor não quer saber que a empresa "está comprometida com a agenda"; quer saber quanto emitiu, se subiu ou caiu, por quê, e o que a empresa vai fazer a respeito.

Meta sem data e sem número é declaração, não meta. Se um indicador piorou, diga e explique. Relatório que só melhora todo ano é o primeiro a levantar suspeita.

7. Verifique

A verificação independente é o que separa relatório publicado de relatório auditado. São dois níveis:

  • Limitada: o auditor faz procedimentos analíticos e conclui que nada chamou a atenção dele.
  • Razoável: o auditor testa em profundidade e emite opinião positiva, no mesmo nível das demonstrações financeiras.

A direção regulatória global é de migração da limitada para a razoável. O que o auditor espera encontrar está em o que significa um relatório ESG auditável.

8. Publique em formato que responde pergunta

PDF longo serve como registro fechado do período e é ruim para todo o resto. Ninguém busca dentro dele, corrigir um número exige republicar o arquivo inteiro, e comparar dois anos vira trabalho manual.

Quem procura um dado específico, compara séries ou precisa mandar um trecho por mensagem é melhor servido por uma versão navegável. Isso vale também para o leitor novo da lista: os sistemas de IA que respondem perguntas sobre a sua empresa montam a resposta com o que conseguem localizar e atribuir a uma fonte.

Quanto tempo leva e quanto custa

O primeiro ciclo, feito do zero, leva de quatro a oito meses na maioria das empresas de médio porte. A distribuição do tempo surpreende quem nunca fez:

  • Materialidade: 3 a 6 semanas
  • Coleta e inventário: 8 a 20 semanas, o gargalo real
  • Redação e design: 4 a 6 semanas
  • Verificação: 3 a 8 semanas

Do segundo ciclo em diante o tempo cai pela metade, desde que a coleta tenha ficado estruturada. Se ela voltar a ser um mutirão de e-mail, o segundo ano custa igual ao primeiro.

O custo varia demais com porte, número de unidades e nível de verificação, então desconfie de quem dá número antes de olhar a sua operação.

Os cinco erros que mais aparecem

  1. Começar pela narrativa. Texto pronto procurando dado que o sustente é a receita do retrabalho.
  2. Mudar a fronteira em silêncio. Se o perímetro muda de um ano para o outro e isso não está declarado, os anos deixam de ser comparáveis e a pergunta sai do clima e vai para a capacidade da empresa de controlar os próprios números.
  3. Ignorar o escopo 3. É a maior parte da pegada. Deixar de fora não reduz emissão, reduz credibilidade.
  4. Meta sem linha de base. Reduzir 30% em relação a quê, medido como?
  5. Publicar e encerrar. O relatório é usado depois: questionário de cliente, due diligence, licitação, call de RI. Se não dá para extrair um recorte dele, ele não serve para nenhuma dessas.

Por onde começar se você nunca fez

Comece pelo inventário, não pelo documento. Ele é o dado mais cobrado, o mais difícil de improvisar e o que destrava todo o resto: CDP, metas SBTi, capítulo de clima do relatório e eventual compliance do SBCE saem todos da mesma base.

Com o inventário em pé e a materialidade decidida, o relatório deixa de ser um projeto e vira uma exportação.

Para levar
  • Decida o leitor antes do padrão: analista de crédito, investidor, cliente e auditor procuram coisas diferentes
  • Faça a materialidade primeiro, porque ela define o escopo do relatório inteiro
  • Monte o inventário de escopos 1, 2 e 3 com fator referenciado e documento de origem em cada linha
  • Declare toda mudança de fronteira entre anos, que é o que quebra a comparabilidade numa due diligence
  • Publique também em formato navegável: o PDF longo não responde a pergunta seguinte

Perguntas frequentes

O relatório de sustentabilidade é obrigatório no Brasil?+

Não de forma universal. A Resolução CVM 244, de 29 de maio de 2026, revogou a obrigatoriedade prevista na CVM 193/2023. A partir de 2027 vale publique ou explique: divulgar é voluntário e quem não divulga precisa justificar publicamente. A Resolução CMN 5.185 mantém o reporte compulsório para as instituições financeiras de maior porte, a partir do exercício de 2026 nos segmentos S1 e S2 e de 2028 no S3, e a CSRD alcança grupos com faturamento acima de €150 milhões na União Europeia a partir do exercício de 2028.

Qual a diferença entre relatório de sustentabilidade e relatório ESG?+

Na prática do mercado brasileiro são usados como sinônimo. Relatório ESG enfatiza os três eixos (ambiental, social e governança) e costuma aparecer em contexto de investidor; relatório de sustentabilidade é o termo mais antigo e mais usado em contexto GRI. O conteúdo e o processo são os mesmos.

Quanto tempo leva para fazer o primeiro relatório de sustentabilidade?+

De quatro a oito meses na maioria das empresas de médio porte. A coleta de dados e o inventário consomem de 8 a 20 semanas e são o gargalo; redação e design levam de 4 a 6 semanas. Do segundo ciclo em diante o tempo cai pela metade, se a coleta tiver ficado estruturada.

Qual padrão usar: GRI, IFRS S2 ou CSRD?+

Depende do leitor. GRI é o mais adotado no Brasil e serve de espinha dorsal. IFRS S1 e S2 atendem investidor e companhia aberta. CSRD/ESRS é obrigatório para quem tem operação ou faturamento relevante na União Europeia. O comum é combinar GRI com IFRS S2 no capítulo de clima, a partir de uma base de dados só.

Preciso de verificação independente?+

Não é obrigatória no reporte voluntário brasileiro, mas é ela que separa relatório publicado de relatório auditado. A CSRD exige verificação limitada, com transição prevista para razoável. Banco e investidor dão peso diferente a dado verificado.

Uma empresa pequena precisa de relatório de sustentabilidade?+

Precisa quando vende para quem reporta. O dado de emissão que você entrega a um cliente grande entra no escopo 3 dele, e questionário de fornecedor tem prazo curto. Nesse caso o inventário resolve a maior parte da demanda, e o relatório completo pode esperar.

Glossário
Materialidade
Lista dos temas que realmente importam para o negócio e para quem ele afeta. Define o escopo do relatório.
Dupla materialidade
Análise que separa o impacto da empresa no mundo do efeito do mundo sobre as finanças da empresa. Exigida pela CSRD.
Fronteira do inventário
Quais operações e fontes de emissão entram na conta. Mudar sem declarar quebra a comparação entre anos.
Verificação limitada
Nível de asseguração em que o auditor conclui que nada chamou a atenção dele. Conclusão negativa.
Verificação razoável
Nível de asseguração em que o auditor emite opinião positiva, no mesmo rigor das demonstrações financeiras.
Publique ou explique
Modelo em que divulgar é voluntário, mas quem não divulga precisa justificar publicamente a decisão.
Fontes

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