
Emissões de gases de efeito estufa: o que são e principais fontes
O que são emissões de gases de efeito estufa, os sete gases medidos, as principais fontes e o escopo de cada uma, o perfil do Brasil, as fontes típicas por setor e como medir e reduzir.
O que são emissões de gases de efeito estufa? São as liberações para a atmosfera de gases que retêm calor, como CO₂, metano e óxido nitroso. Elas vêm da queima de combustíveis, de processos industriais, de vazamentos, da agropecuária, do desmatamento e dos resíduos. Numa empresa, cada fonte entra no Escopo 1, 2 ou 3 do inventário, e é medida em tCO₂e para que gases diferentes possam ser somados.
O que são emissões de gases de efeito estufa
Gases de efeito estufa (GEE) são gases que deixam a luz do sol passar, mas retêm parte do calor que a Terra devolve ao espaço. Esse efeito é natural e mantém o planeta habitável. O problema está no excesso: desde a Revolução Industrial, a atividade humana elevou a concentração desses gases na atmosfera, e o calor retido a mais aquece o clima.
Emissões de gases de efeito estufa são, portanto, as liberações desses gases provocadas pela atividade humana: queimar combustível, fabricar cimento, criar gado, desmatar, descartar resíduos. Medir essas emissões é o primeiro passo de qualquer estratégia climática, seja de um país, seja de uma empresa.
Quais gases entram na conta
O inventário corporativo, pelo GHG Protocol, cobre sete gases. Seis deles estavam no Protocolo de Kyoto, de 1997. O sétimo, o trifluoreto de nitrogênio, foi incluído depois, na emenda de Doha.
| Gás | Fórmula | Onde aparece com mais frequência |
|---|---|---|
| Dióxido de carbono | CO₂ | Queima de combustíveis fósseis, cimento, desmatamento |
| Metano | CH₄ | Rebanho bovino, aterros, efluentes, vazamento de gás natural |
| Óxido nitroso | N₂O | Fertilizantes nitrogenados, manejo de dejetos, alguns processos químicos |
| Hidrofluorcarbonos | HFCs | Gases refrigerantes de ar-condicionado e refrigeração |
| Perfluorcarbonos | PFCs | Produção de alumínio, indústria eletrônica |
| Hexafluoreto de enxofre | SF₆ | Isolamento de equipamentos elétricos de alta tensão |
| Trifluoreto de nitrogênio | NF₃ | Fabricação de semicondutores e telas |
O que é tCO₂e e o potencial de aquecimento global
Cada gás aquece o planeta com intensidade diferente. Para somar tudo numa unidade só, o inventário usa o potencial de aquecimento global (GWP, na sigla em inglês). O GWP diz quantas toneladas de CO₂ teriam o mesmo efeito de uma tonelada do gás num horizonte de 100 anos.
O resultado é a tonelada de CO₂ equivalente, ou tCO₂e. Alguns valores de referência, pelos relatórios do IPCC:
- Metano: cerca de 28 vezes o CO₂.
- Óxido nitroso: 265 vezes no quinto relatório (AR5) e 273 vezes no sexto (AR6).
- SF₆: mais de 20 mil vezes.
Por isso um vazamento pequeno de gás refrigerante ou de SF₆ pode pesar mais no inventário do que a sua massa sugere. E por isso a versão do GWP usada precisa ser a mesma ao longo da série histórica. Misturar AR5 e AR6 cria variações que não aconteceram na operação.
Principais fontes de emissão e o escopo de cada uma
O GHG Protocol separa as emissões de uma empresa em três escopos. O Escopo 1 reúne as emissões diretas, de fontes que a empresa controla. O Escopo 2 cobre a energia comprada. O Escopo 3 traz as emissões indiretas da cadeia de valor. A mesma fonte pode cair em escopos diferentes, conforme quem controla a atividade.
| Fonte | Exemplos | Escopo |
|---|---|---|
| Combustão estacionária | Caldeiras, fornos, geradores a diesel | 1 |
| Combustão móvel | Frota própria de caminhões, carros, empilhadeiras | 1 (frota própria) ou 3 (transporte terceirizado, viagens, deslocamento) |
| Processos industriais | Calcinação no cimento, redução na siderurgia, reações químicas | 1 |
| Emissões fugitivas | Vazamento de gás refrigerante, SF₆ em subestações, gás natural | 1 |
| Energia elétrica e térmica comprada | Conta de luz, vapor comprado | 2 |
| Agropecuária | Fermentação entérica do gado, dejetos, fertilizantes | 1 (operação própria) ou 3 (insumos comprados) |
| Mudança de uso da terra | Supressão de vegetação nativa | 1 (área própria) ou 3 (cadeia de fornecimento) |
| Resíduos e efluentes | Aterro, estação de tratamento de efluentes | 1 (tratamento próprio) ou 3 (tratamento por terceiros) |
Algumas observações que evitam erro na classificação:
Combustão. O CO₂ da queima de etanol, biodiesel ou lenha de origem renovável é biogênico. Pelo GHG Protocol, ele é relatado à parte, fora dos escopos. O metano e o óxido nitroso dessa mesma queima, porém, entram no Escopo 1.
Energia comprada. O Escopo 2 tem duas abordagens: por localização, com o fator médio da rede, e por escolha de compra, que reflete contratos e certificados de energia renovável. O GHG Protocol pede que a empresa relate as duas quando tiver acesso a instrumentos de compra.
Cadeia de valor. Transporte contratado, matéria-prima, viagens, resíduos enviados a terceiros e uso dos produtos vendidos são Escopo 3. As 15 categorias estão no guia prático do Escopo 3.
O perfil das emissões no Brasil
Na maior parte dos países industrializados, a principal fonte de emissões é a energia: queima de carvão, petróleo e gás para gerar eletricidade, mover veículos e abastecer a indústria. O Brasil é diferente.
O SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa), mantido pelo Observatório do Clima, organiza as emissões brasileiras em cinco setores: mudança de uso da terra e florestas, agropecuária, energia, processos industriais e resíduos. Nas séries do SEEG, a mudança de uso da terra, puxada pelo desmatamento, aparece como o maior setor emissor do país na maior parte dos anos, com a agropecuária logo atrás. Juntos, os dois respondem pela maior parte das emissões brutas brasileiras.
Esse perfil tem duas explicações. A primeira é o peso do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. A segunda é o tamanho do rebanho bovino e da agricultura, que emitem metano e óxido nitroso. Ao mesmo tempo, a matriz elétrica brasileira é majoritariamente renovável, com forte participação hidrelétrica, eólica e solar. Por isso o Escopo 2 de uma empresa no Brasil tende a ser menor do que seria num país que gera eletricidade com carvão.
O inventário oficial do país é publicado pelo MCTI, no sistema SIRENE. O SEEG é uma estimativa independente, atualizada todo ano, útil para acompanhar a tendência por setor e por estado.
Emissões brutas, remoções e emissões líquidas
O SEEG, assim como os inventários nacionais, estima também remoções: o carbono que florestas em crescimento e áreas protegidas retiram da atmosfera. Por isso os números do país aparecem de duas formas. A emissão bruta é tudo o que foi liberado. A emissão líquida desconta as remoções.
A distinção vale também para empresas. Num inventário corporativo, o número principal é sempre a emissão bruta. Remoções e créditos de carbono, quando existem, são relatados à parte, para que quem lê consiga separar o que foi reduzido do que foi compensado.
Fontes típicas por setor
Cada setor tem um perfil próprio. Saber onde costumam estar as maiores fontes ajuda a priorizar a coleta de dados.
- Indústria: combustão em caldeiras e fornos, processos industriais, energia comprada e matérias-primas, que entram no Escopo 3.
- Transporte: combustão móvel de diesel na frota própria, que domina o Escopo 1, e gás refrigerante em veículos com câmara fria.
- Varejo: energia das lojas, vazamento de refrigerante em balcões e câmaras frias e, de longe a maior parte, produtos comprados para revenda e logística, no Escopo 3.
- Serviços: energia de escritórios, viagens a trabalho, deslocamento de funcionários e serviços contratados. O Escopo 3 costuma ser a maior fatia.
- Agronegócio: fermentação entérica do gado, fertilizantes nitrogenados, manejo de dejetos, diesel de máquinas e, quando houver, mudança de uso da terra.
- Construção: materiais como cimento e aço, que entram no Escopo 3, diesel de equipamentos no canteiro e resíduos de obra.
- Energia: combustão em usinas térmicas, SF₆ em equipamentos de alta tensão e emissões da cadeia de combustíveis.
- Mineração: diesel de equipamentos de lavra e transporte, explosivos, energia comprada e, em alguns casos, supressão de vegetação.
Como medir as emissões da sua empresa
O instrumento para medir é o Inventário GHG. Ele segue uma lógica simples: para cada fonte, multiplica-se o dado de atividade pelo fator de emissão.
Emissão (tCO₂e) = dado de atividade × fator de emissão
O dado de atividade é o que a empresa já registra: litros de diesel, kWh de energia, toneladas de resíduo, quilômetros rodados, valor de compras. O fator de emissão converte essa atividade em gás emitido. No Brasil, a referência são os fatores do MCTI, como o fator do Sistema Interligado Nacional para energia elétrica. Na falta deles, usam-se os do IPCC. As diferenças entre as bases estão no guia de fatores de emissão do MCTI e do IPCC.
O passo a passo completo, da definição de fronteira à verificação independente, está em como fazer o inventário de gases de efeito estufa. Os cinco pontos que mais pesam na qualidade do resultado:
- Definir a fronteira organizacional e operacional antes de coletar dados.
- Guardar o documento de origem de cada número: nota fiscal, fatura, planilha de abastecimento.
- Registrar fonte, ano e versão de cada fator de emissão.
- Medir o Escopo 3 desde o primeiro ano, mesmo que por estimativa.
- Submeter o resultado a verificação independente antes de comunicar.
Como reduzir as emissões
Com as fontes mapeadas, a redução deixa de ser genérica e passa a ter endereço. As alavancas mais comuns, por tipo de fonte:
- Combustão estacionária: eficiência energética, troca de combustível fóssil por biomassa ou biocombustível, eletrificação de processos térmicos.
- Combustão móvel: renovação da frota, biocombustíveis, eletrificação, roteirização e ocupação de carga.
- Emissões fugitivas: manutenção preventiva e troca por refrigerantes de menor GWP.
- Energia comprada: contratação de energia renovável com rastreabilidade e geração própria.
- Agropecuária: manejo de pastagens, aplicação precisa de fertilizante e tratamento de dejetos.
- Escopo 3: engajamento de fornecedores, critério de compra e mudança de material.
Para transformar essas alavancas em meta, o caminho é a meta baseada em ciência. O conceito de net zero mostra onde essa jornada termina.
Onde a Mangue Tech ajuda
A Mangue Tech calcula o Inventário GHG dos Escopos 1, 2 e 3 pelo GHG Protocol, com fatores do MCTI e do IPCC e documento de origem ligado a cada linha. O resultado mostra de onde vêm as emissões da empresa, por fonte, unidade e escopo, e vira a base do plano de redução.
- Meça os sete gases do GHG Protocol e converta tudo para tCO₂e com a mesma versão de GWP em toda a série
- Classifique cada fonte no escopo certo: a mesma atividade pode ser Escopo 1 ou Escopo 3, conforme quem a controla
- Relate o CO₂ biogênico de etanol e biodiesel à parte, mas inclua o metano e o óxido nitroso da queima no Escopo 1
- Use os fatores do MCTI como primeira referência no Brasil e registre fonte e versão de cada um
- Priorize a coleta de dados pelas fontes que costumam dominar o seu setor
- Não deixe o Escopo 3 para depois: em muitos setores é onde está a maior parte das emissões
Perguntas frequentes sobre emissões de gases de efeito estufa
O que são emissões de gases de efeito estufa?+
São as liberações para a atmosfera, provocadas pela atividade humana, de gases que retêm calor, como CO₂, metano e óxido nitroso. Vêm da queima de combustíveis, de processos industriais, de vazamentos, da agropecuária, do desmatamento e dos resíduos.
O que é GEE?+
GEE é a sigla de gases de efeito estufa. O inventário corporativo pelo GHG Protocol cobre sete: dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄), óxido nitroso (N₂O), hidrofluorcarbonos (HFCs), perfluorcarbonos (PFCs), hexafluoreto de enxofre (SF₆) e trifluoreto de nitrogênio (NF₃).
Quais são as principais fontes de emissão de gases de efeito estufa?+
Combustão estacionária e móvel, processos industriais, emissões fugitivas, energia elétrica comprada, agropecuária, mudança de uso da terra e tratamento de resíduos e efluentes. O peso de cada uma muda conforme o país e o setor.
Quais setores mais emitem gases de efeito estufa no Brasil?+
Segundo o SEEG, do Observatório do Clima, a mudança de uso da terra, puxada pelo desmatamento, e a agropecuária respondem pela maior parte das emissões brutas do Brasil. Energia, processos industriais e resíduos vêm depois. Em países industrializados, a energia costuma liderar.
O que é tCO₂e?+
É a tonelada de CO₂ equivalente, unidade que converte todos os gases de efeito estufa para a mesma base usando o potencial de aquecimento global (GWP) de cada um. Uma tonelada de metano, por exemplo, equivale a cerca de 28 tCO₂e.
Como uma empresa mede as próprias emissões?+
Com um Inventário GHG pelo GHG Protocol. Para cada fonte, o dado de atividade, como litros de diesel ou kWh, é multiplicado por um fator de emissão, de preferência do MCTI no Brasil. O resultado é organizado em Escopos 1, 2 e 3 e passa por verificação independente.
- GEE
- Gases de efeito estufa. Gases que retêm calor na atmosfera, como CO₂, metano e óxido nitroso.
- tCO₂e
- Tonelada de CO₂ equivalente. Unidade que soma gases diferentes usando o potencial de aquecimento global de cada um.
- GWP
- Global warming potential, ou potencial de aquecimento global. Quanto um gás aquece em relação ao CO₂ num horizonte de 100 anos.
- Emissão fugitiva
- Liberação não intencional de gás, como vazamento de refrigerante, de SF₆ ou de gás natural.
- CO₂ biogênico
- CO₂ emitido na queima ou decomposição de biomassa, como etanol e biodiesel. É relatado à parte, fora dos escopos.
- SEEG
- Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, mantido pelo Observatório do Clima.
- GHG Protocol Corporate Accounting and Reporting Standard · GHG Protocol
- Corporate Value Chain (Scope 3) Accounting and Reporting Standard · GHG Protocol
- SEEG · Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa · Observatório do Clima
- SIRENE · Sistema de Registro Nacional de Emissões · Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
- Sixth Assessment Report · Working Group I · IPCC
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