
ESG no setor financeiro: PCAF, IFRS S2, CVM 193 e o que muda
Como bancos, seguradoras e gestoras de ativos estão se adaptando às novas exigências de mensuração de emissões financiadas, reporte climático e produtos financeiros verdes.
O novo ambiente regulatório para o financeiro (CVM 193, PCAF, Net-Zero Banking Alliance)
O setor financeiro brasileiro vive uma transformação regulatória sem precedentes na agenda climática. Três vetores convergem simultaneamente.
A CVM 193 torna obrigatório o reporte de sustentabilidade para companhias abertas a partir de 2026, seguindo os padrões IFRS S1 e S2. Bancos, seguradoras e gestoras com ações ou títulos listados na B3 precisam reportar riscos e oportunidades climáticos de forma padronizada — incluindo análise de cenários, métricas de emissão e metas de redução.
O PCAF (Partnership for Carbon Accounting Financials) é o padrão global para mensuração de emissões financiadas — as emissões associadas às carteiras de crédito, investimento e subscrição de seguradoras. Mais de 500 instituições financeiras globais adotaram o PCAF, incluindo bancos brasileiros de grande porte. O Banco Central do Brasil recomenda o PCAF como referência metodológica.
A Net-Zero Banking Alliance (NZBA) e a Net-Zero Asset Managers Initiative (NZAMI) são compromissos voluntários que exigem metas de descarbonização de carteiras alinhadas ao Acordo de Paris. Instituições signatárias precisam publicar metas intermediárias para setores prioritários e demonstrar progresso anual.
Juntos, esses vetores criam um ciclo: mensurar (PCAF), reportar (CVM 193/IFRS S2) e agir (NZBA/NZAMI). A instituição que não mensura não pode reportar. A que não reporta não pode demonstrar progresso. E a que não demonstra progresso perde credibilidade com investidores, reguladores e clientes.
Emissões financiadas: o que são e como medir (PCAF)
Emissões financiadas são as emissões de GEE associadas às atividades de financiamento, investimento e subscrição de uma instituição financeira. Correspondem à Categoria 15 do Escopo 3 do GHG Protocol e são, de longe, a maior fonte de emissões de qualquer banco — tipicamente 100 a 700 vezes maiores que os Escopos 1 e 2 combinados.
O PCAF define metodologias para sete classes de ativos.
Empréstimos e financiamentos corporativos. A emissão financiada é calculada pela fórmula: emissão da empresa financiada multiplicada pelo fator de atribuição (valor do empréstimo dividido pelo valor da empresa — EVIC ou receita). Se o banco financiou R$ 100 milhões de uma empresa com EVIC de R$ 1 bilhão e emissões de 500.000 tCO2e, a emissão financiada é 50.000 tCO2e.
Financiamentos imobiliários. Para hipotecas residenciais e comerciais, o PCAF usa a performance energética do imóvel (consumo de energia por m²) e o fator de emissão da rede elétrica. Os dados de EPC (Energy Performance Certificate) são ideais, mas no Brasil a disponibilidade é limitada.
Financiamento de veículos. Emissões baseadas no tipo de veículo, combustível e quilometragem estimada. O fator de atribuição considera o valor do financiamento em relação ao valor do veículo.
Project finance. Para projetos de infraestrutura, energia e indústria, as emissões de todo o projeto são atribuídas proporcionalmente à participação do banco no financiamento.
Investimentos listados (ações e títulos corporativos). Similar a empréstimos corporativos, usando EVIC e emissões da empresa investida.
Títulos soberanos. Emissões associadas a títulos públicos, baseadas nas emissões nacionais per capita ou setoriais do país emissor.
Seguros (subscrição). Emissões associadas a apólices de seguro corporativo, baseadas nas emissões da empresa segurada e na participação da seguradora no risco.
Reporte obrigatório IFRS S2 para companhias abertas
O IFRS S2 (Climate-related Disclosures) define o padrão global de divulgação de riscos e oportunidades climáticos, adotado no Brasil pela CVM 193. Para o setor financeiro, as exigências são especialmente abrangentes.
Governança. A instituição deve descrever como o conselho de administração supervisiona riscos climáticos, incluindo competências do conselho, frequência de discussão, integração com gestão de riscos e remuneração atrelada a metas climáticas.
Estratégia. Divulgação de como riscos e oportunidades climáticos afetam o modelo de negócios, a estratégia e o planejamento financeiro. Para bancos, isso inclui a análise de como riscos de transição (precificação de carbono, mudança regulatória) e riscos físicos (eventos extremos, aumento do nível do mar) afetam a carteira de crédito.
Análise de cenários. O IFRS S2 exige análise de resiliência da estratégia sob diferentes cenários climáticos. O NGFS (Network for Greening the Financial System) publica cenários de referência usados pelo Banco Central do Brasil em stress tests climáticos.
Métricas e metas. Emissões de Escopos 1, 2 e 3 (incluindo financiadas), intensidade de carbono da carteira, percentual de ativos alinhados a Paris, exposição a setores de alto carbono, metas de descarbonização com horizonte temporal definido.
O desafio para instituições financeiras brasileiras é a disponibilidade de dados. Muitas empresas financiadas — especialmente PMEs — não têm inventário de emissões. Sem esses dados, o banco precisa usar estimativas setoriais (PCAF score 4 ou 5), que são menos precisas e mais difíceis de defender junto a reguladores e investidores.
CDP Financial Services
O CDP tem um questionário específico para instituições financeiras que vai além do questionário corporativo padrão.
Climate Change Questionnaire — Financial Services. Inclui seções sobre emissões financiadas (alinhadas ao PCAF), engagement com empresas financiadas, estratégia de descarbonização de carteiras, exposição a riscos de transição e físicos, e produtos financeiros verdes.
Scores diferenciados. Instituições financeiras que não reportam emissões financiadas ou não demonstram engagement com a cadeia de valor dificilmente conseguem scores A ou A-. O CDP espera mensuração progressiva e metas setoriais de descarbonização.
CDP Supply Chain — versão financeira. Bancos podem usar o programa CDP Supply Chain para solicitar que empresas financiadas reportem emissões ao CDP. Isso melhora a qualidade dos dados (PCAF score) e demonstra engagement ativo.
Taxonomia Sustentável Brasileira e produtos financeiros verdes
A Taxonomia Sustentável Brasileira terá impacto direto na classificação de produtos financeiros.
Classificação de carteiras. Bancos poderão classificar cada empréstimo e investimento como alinhado, em transição ou não alinhado à taxonomia. Isso permite calcular o Green Asset Ratio (GAR) — o percentual da carteira investido em atividades sustentáveis.
Green bonds e títulos sustentáveis. A TSB padronizará os critérios de elegibilidade para green bonds brasileiros, substituindo frameworks proprietários por critérios técnicos verificáveis. Investidores internacionais que seguem a EU Taxonomy terão parâmetros comparáveis.
Linhas de crédito verde. Bancos que oferecem taxas diferenciadas para projetos sustentáveis precisarão de critérios objetivos de elegibilidade. A TSB fornecerá esses critérios, reduzindo risco reputacional de greenwashing e simplificando a originação.
Fundos de investimento. Gestoras que classificam fundos como ESG ou sustentáveis precisarão demonstrar alinhamento com a taxonomia. A CVM já sinalizou regulamentação específica para evitar naming sem substância.
Risco climático e cenários NGFS
O gerenciamento de risco climático é a fronteira técnica mais avançada para o setor financeiro.
Risco físico. Impactos diretos de eventos climáticos — secas, inundações, incêndios, ciclones, elevação do nível do mar — sobre ativos financiados. Para um banco com carteira imobiliária concentrada em cidades costeiras, o risco físico é tangível e quantificável. O IPCC projeta aumento de frequência e intensidade de eventos extremos, com impacto direto em provisões para perdas de crédito.
Risco de transição. Impactos indiretos da transição para uma economia de baixo carbono — regulações mais rigorosas (SBCE, CBAM), mudanças tecnológicas (eletrificação, energia renovável), mudanças de comportamento do consumidor, precificação de carbono. Empresas em setores intensivos em carbono que não se adaptarem podem ter redução de receitas, aumento de custos e desvalorização de ativos (stranded assets).
Cenários NGFS. O Network for Greening the Financial System publica cenários macroeconômicos que integram variáveis climáticas com modelos financeiros. Os cenários variam de orderly transition (transição ordenada, com políticas graduais) a hot house world (mundo sem ação climática suficiente). O Banco Central do Brasil usa cenários NGFS em stress tests climáticos obrigatórios para grandes instituições.
Stress test climático do BCB. A Resolução BCB 139/2021 exige que grandes instituições realizem testes de estresse climático. O banco precisa estimar perdas de crédito, variações de receita e impacto em capital sob diferentes cenários de aquecimento global e transição. Os resultados são reportados ao BCB e influenciam a supervisão prudencial.
Como a Mangue Tech atende o financeiro
A Mangue Tech oferece um pacote especializado para o setor financeiro, cobrindo todo o ciclo de mensuração, reporte e ação.
Implementação PCAF. A equipe da Mangue Tech configura o cálculo de emissões financiadas para todas as classes de ativos relevantes, usando a metodologia PCAF mais recente. O processo inclui mapeamento da carteira, coleta de dados de empresas financiadas, aplicação de fatores de emissão e cálculo de emissões atribuídas.
Inventário de Escopos 1, 2 e 3. Além das emissões financiadas, a Mangue Tech calcula os escopos operacionais da instituição — energia de agências e data centers, viagens corporativas, deslocamento de funcionários e demais categorias do Escopo 3.
Suporte ao reporte. A plataforma gera relatórios alinhados ao IFRS S2, CDP Financial Services e requisitos do Banco Central. Os dados são estruturados para alimentar diretamente os formulários de reporte, reduzindo retrabalho.
Consultoria regulatória. A equipe de consultoria apoia a interpretação de requisitos regulatórios (CVM 193, BCB, PCAF), o desenho de metas de descarbonização de carteira e a preparação para a Taxonomia Sustentável Brasileira.
- Emissões financiadas são a prioridade — comece pela implementação do PCAF nas carteiras de maior exposição
- Integre risco climático ao processo decisório de crédito e investimento, não apenas ao compliance
- Prepare-se para a Taxonomia Sustentável Brasileira com classificação preliminar de carteiras
- Use o CDP Financial Services como framework de melhoria contínua com benchmark de mercado
Perguntas frequentes
Emissões financiadas são obrigatórias no reporte?+
Sim, para companhias abertas sob CVM 193. O IFRS S2 exige divulgação de Escopo 3 quando material — e emissões financiadas são invariavelmente a maior fonte para bancos.
Qual o prazo para implementar PCAF?+
Não há prazo regulatório específico, mas o BCB recomenda e o CDP exige. Instituições que participam da NZBA devem publicar metas setoriais baseadas em dados PCAF dentro de 18 meses da adesão.
A Mangue Tech atende bancos pequenos e médios?+
Sim. A plataforma é escalável — funciona tanto para grandes bancos com carteiras diversificadas quanto para cooperativas de crédito e fintechs com carteiras mais concentradas.
- PCAF
- Partnership for Carbon Accounting Financials — padrão global para mensuração de emissões financiadas.
- EVIC
- Enterprise Value Including Cash — métrica usada como denominador para atribuir emissões a investidores e credores.
- GAR
- Green Asset Ratio — percentual da carteira de um banco investido em atividades alinhadas à taxonomia.
- NZBA
- Net-Zero Banking Alliance — compromisso de bancos com descarbonização de carteiras até 2050.
- NGFS
- Network for Greening the Financial System — rede de bancos centrais e supervisores para gestão de risco climático.
- Stranded assets
- Ativos que perdem valor antes do previsto devido à transição climática — usinas fósseis, reservas de combustível.
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